Não foram só as Malvinas: ingleses já invadiram e ocuparam Buenos Aires

Não foram só as Malvinas: ingleses já invadiram e ocuparam Buenos Aires

Não foram só as Malvinas: ingleses já invadiram e ocuparam Buenos Aires

Resumo

Quando se fala na rivalidade entre Argentina e Reino Unido, a Guerra das Malvinas, em 1982, costuma ser o primeiro episódio lembrado. Mas, quase dois séculos antes, tropas britânicas chegaram a conquistar e ocupar Buenos Aires durante as Guerras Napoleônicas.

Por que os britânicos queriam Buenos Aires?

Os britânicos tentaram tomar a cidade em duas ocasiões: primeiro em 1806 e novamente em 1807. Nas duas vezes, acabaram derrotados. Apesar do fracasso militar, as invasões mudaram o rumo da história da região e ajudaram a abrir caminho para a futura independência argentina.

Na época, a Argentina ainda não existia como país. Buenos Aires era a capital do Vice-Reino do Rio da Prata, uma colônia do império espanhol que abrangia áreas dos atuais Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e parte do Chile.

No início do século 19, a Europa vivia as Guerras Napoleônicas. A Espanha era aliada da França de Napoleão Bonaparte, enquanto o Reino Unido buscava enfraquecer seus adversários e ampliar sua presença comercial.

Além da posição estratégica, Buenos Aires controlava uma das principais portas de entrada para o interior da América do Sul. Segundo informativo do governo de Buenos Aires, seu porto era fundamental para o comércio da prata produzida na região e despertava grande interesse econômico da Grã-Bretanha. Para os britânicos, conquistar a cidade significava abrir novos mercados e enfraquecer um importante aliado da França.

Essa também é a avaliação do historiador britânico John D. Grainger, do Royal Museums Greenwich. Segundo ele, as campanhas faziam parte da estratégia do Reino Unido para atacar colônias espanholas e holandesas aliadas de Napoleão e expandir a influência britânica no Atlântico Sul.

A primeira invasão

A primeira ocupação aconteceu em junho de 1806. Uma expedição liderada pelo brigadeiro-general William Carr Beresford e pelo comodoro Home Popham desembarcou em Quilmes, nos arredores de Buenos Aires.

Com cerca de 1.600 soldados, os britânicos derrotaram rapidamente as tropas enviadas pelo vice-rei Rafael de Sobremonte. Diante do avanço inimigo, Sobremonte deixou a capital e seguiu para Córdoba levando parte do tesouro espanhol. Mesmo assim, os britânicos conseguiram capturar recursos do vice-reinado.

Pouco depois, a bandeira britânica foi hasteada sobre o forte da cidade, e Beresford assumiu o governo.

Durante cerca de 46 dias, Buenos Aires ficou oficialmente sob administração britânica. Beresford exerceu o cargo de governador e tentou conquistar o apoio da elite local por meio da abertura do comércio.

População decidiu reagir

A ocupação não foi aceita passivamente, segundo relatórios do governo argentino. Embora parte da elite tenha reconhecido a autoridade britânica, comerciantes, integrantes do Cabildo e outros grupos da sociedade passaram a organizar a resistência.

A resistência ganhou força com a chegada de Santiago de Liniers, um militar francês que servia à Coroa espanhola. Saindo de Montevidéu, ele reuniu cerca de mil soldados e recebeu o apoio de milhares de voluntários durante o trajeto até Buenos Aires.

Em 12 de agosto de 1806, as tropas de Liniers cercaram os britânicos e obrigaram Beresford a se render. Assim, encerrou-se a primeira ocupação inglesa da cidade.

Britânicos tentaram novamente

A derrota não fez Londres abandonar seus planos. No início de 1807, uma nova expedição, agora oficialmente autorizada pelo governo britânico e comandada pelo tenente-general John Whitelocke, conquistou Montevidéu antes de seguir em direção a Buenos Aires. O objetivo era controlar definitivamente o Rio da Prata e ampliar a presença britânica na região.

Desta vez, porém, a cidade estava preparada. Barricadas foram erguidas nas ruas, moradores ocuparam telhados e janelas e passaram a atacar os soldados com tiros, pedras e objetos improvisados. Mulheres também participaram da resistência, auxiliando no combate e lançando projéteis das casas. Os confrontos transformaram Buenos Aires em um dos primeiros grandes exemplos de guerra urbana na América do Sul.

Depois de dias de combates, Whitelocke aceitou a rendição em 7 de julho de 1807 e retirou todas as tropas britânicas da região.

Consequências

Os fracassos no Rio da Prata repercutiram até mesmo no Reino Unido. O comodoro Home Popham, responsável por incentivar a primeira expedição contra Buenos Aires, foi levado à corte marcial por ter excedido as ordens recebidas. Após a derrota na segunda invasão, o general John Whitelocke também enfrentou uma corte marcial e teve sua carreira militar encerrada.

Para muitos historiadores, o maior impacto das invasões não foi militar, mas político. Além de enfraquecer a autoridade do vice-rei espanhol, elas mostraram que Buenos Aires era capaz de organizar sua própria defesa. As milícias ganharam prestígio, novos líderes políticos surgiram e aumentou o sentimento de autonomia. Esse processo, segundo especialistas argentinos, criou as condições que levariam à Revolução de Maio de 1810 e, posteriormente, à independência da Argentina.

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