De quem são as Malvinas? Como acabou a guerra entre Argentina e Reino Unido

De quem são as Malvinas? Como acabou a guerra entre Argentina e Reino Unido

De quem são as Malvinas? Como acabou a guerra entre Argentina e Reino Unido

Resumo

O confronto entre Argentina e Inglaterra pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, marcado para quarta-feira (15), às 16h no horário de Brasília, reedita uma rivalidade esportiva marcada também por um conflito histórico. Em 1982, os dois países estiveram em lados opostos na Guerra das Malvinas, disputa armada pelo controle do arquipélago localizado no Atlântico Sul.

O que aconteceu

As Ilhas Malvinas estão a 550 quilômetros do litoral argentino. A distância da Grã-Bretanha para as Malvinas é de 12.800 quilômetros. Para os argentinos, a capital das ilhas se chama Puerto Argentino; já para os britânicos, o nome é Stanley.

Atualmente, as Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos, são administradas pelo Reino Unido. A Argentina, porém, considera o arquipélago parte de seu território e mantém a reivindicação de soberania. A Organização das Nações Unidas reconhece que existe uma disputa entre os dois países, mas não declara que as ilhas pertencem definitivamente a um deles.

As Malvinas são classificadas pelo governo britânico como um Território Ultramarino, com administração e governo locais. Londres permanece responsável por áreas como defesa e parte das relações exteriores.

Isso significa que as ilhas não integram formalmente a Inglaterra. Elas mantêm uma relação política e constitucional com o Reino Unido, formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

A Argentina, entretanto, rejeita a soberania britânica. O país afirma que herdou da Espanha os direitos sobre o arquipélago após sua independência e considera que o território está ocupado pelo Reino Unido desde 1833.

Qual é a posição da ONU?

As Ilhas Malvinas estão na lista de Territórios Não Autônomos das Nações Unidas desde 1946. O Reino Unido aparece como a potência administradora do arquipélago. Em 1965, a Assembleia Geral aprovou a Resolução 2065, que reconheceu formalmente a existência de uma disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido e convidou os governos dos dois países a buscar uma solução pacífica.

A ONU, portanto, não reconhece de forma definitiva a soberania argentina nem declara que o território pertence exclusivamente ao Reino Unido. O organismo internacional trata o caso como uma disputa ainda não solucionada.

Por que Argentina e Reino Unido reivindicam as ilhas?

A disputa remonta aos períodos de colonização europeia no Atlântico Sul. O Reino Unido sustenta que ocupa e administra continuamente as ilhas desde 1833, com exceção do período da ocupação argentina durante a guerra de 1982. Também argumenta que os moradores têm o direito de decidir o próprio futuro político.

A Argentina afirma que recebeu os direitos sobre as ilhas da Espanha após declarar sua independência, em 1816. O governo argentino considera que os britânicos retiraram as autoridades locais à força em 1833 e passaram a ocupar ilegalmente o território.

Os dois países, portanto, utilizam interpretações históricas e jurídicas diferentes para justificar suas reivindicações.

E o que os moradores das Malvinas defendem?

Em um referendo realizado em março de 2013, os habitantes foram questionados sobre a manutenção do arquipélago como Território Ultramarino Britânico. Segundo os resultados divulgados pelo governo britânico, 1.513 pessoas, o equivalente a 99,8% dos votos válidos, escolheram permanecer vinculadas ao Reino Unido. Apenas três votaram contra, e a participação chegou a 92% do eleitorado.

O Reino Unido utiliza o resultado como argumento em defesa do direito dos moradores à autodeterminação. A posição britânica é que nenhuma negociação sobre mudança de soberania deve ocorrer sem o consentimento da população local. Essa interpretação foi reiterada pelo governo britânico em junho de 2026.

A Argentina, por sua vez, não considera que o referendo encerre a disputa. O governo argentino argumenta que a população atual foi estabelecida pelo poder colonial britânico e que o princípio da autodeterminação não deve ser aplicado da mesma forma nesse caso.

Como começou a Guerra das Malvinas?

A guerra começou em 2 de abril de 1982. Na ocasião, as tropas argentinas desembarcaram nas ilhas e assumiram o controle da capital, Stanley, chamada de Puerto Argentino pelo governo argentino.

Na época, a Argentina era governada por uma ditadura militar liderada pelo general Leopoldo Galtieri. A ocupação procurava consolidar pela força a reivindicação argentina sobre o território. O governo britânico, comandado pela primeira-ministra Margaret Thatcher, reagiu enviando ao Atlântico Sul uma força-tarefa formada por navios militares, aeronaves e milhares de soldados. Embora seja comum falar em uma guerra entre Argentina e Inglaterra, o conflito ocorreu oficialmente entre a Argentina e o Reino Unido.

Os combates duraram 74 dias e envolveram operações navais, ataques aéreos e batalhas terrestres. Entre os episódios mais marcantes esteve o afundamento do cruzador argentino General Belgrano por um submarino britânico, em 2 de maio. Mais de 300 tripulantes argentinos morreram. Dois dias depois, um míssil disparado por uma aeronave argentina atingiu o destróier britânico HMS Sheffield, matando 20 tripulantes.

As tropas britânicas começaram a desembarcar nas ilhas em 21 de maio. Após uma série de confrontos, avançaram em direção a Stanley, onde estava concentrada a defesa argentina.

Como terminou?

Em 14 de junho de 1982, as tropas britânicas retomaram Stanley. O comandante das forças argentinas nas ilhas assinou a rendição, encerrando os principais combates.

Mais de 11 mil soldados argentinos se renderam. Com a vitória militar, o Reino Unido recuperou o controle completo do arquipélago e reforçou posteriormente sua presença de defesa na região.

A derrota também acelerou o enfraquecimento da ditadura argentina. O regime militar perdeu apoio popular e deixou o poder no ano seguinte, quando o país voltou a realizar eleições democráticas.

No Reino Unido, a vitória fortaleceu politicamente Margaret Thatcher, que seria reeleita primeira-ministra em 1983.

O conflito provocou a morte de 649 militares argentinos e 255 militares britânicos. Três moradores das ilhas também morreram. Ao todo, 907 pessoas morreram durante a guerra.

Vitória britânica não resolveu a disputa. A rendição argentina encerrou a guerra e restabeleceu o controle britânico sobre as ilhas, mas não resolveu juridicamente a disputa de soberania.

Desde então, a Argentina afirma que pretende recuperar o arquipélago por meios diplomáticos. O Reino Unido, por sua vez, sustenta que a soberania não está aberta à negociação enquanto os moradores desejarem permanecer vinculados aos britânicos.

Não houve retomada efetiva das negociações sobre soberania. Apesar disso, houve alguns acordos de cooperação entre os países, como iniciativas para identificar militares argentinos enterrados nas ilhas.

Guerra não mudou nomes dos clubes argentinos

A Guerra das Malvinas despertou um forte sentimento antibritânico na Argentina. Durante o conflito, monumentos ligados ao Reino Unido foram alvo de ataques, escolas de inglês sofreram depredações e até ruas com nomes ingleses foram rebatizadas em algumas cidades.

Curiosamente, essa onda de rejeição não atingiu o futebol. Clubes tradicionais que carregam nomes de origem inglesa permaneceram intocados, sem qualquer movimento oficial para alterar suas identidades. Entre eles estão equipes como River Plate — cujo nome significa "Rio da Prata" em inglês—, Boca Juniors, Racing Club, Newell's Old Boys, All Boys, Banfield, Chaco For Ever, Douglas Haig e Temperley.

Pesquisadores apontam que essa influência reflete a forte presença britânica na Argentina entre o fim do século 19 e o início do século 20. Na época, empresários, engenheiros e funcionários ingleses ligados às ferrovias, aos portos e ao comércio ajudaram a difundir o futebol no país, influenciando inclusive a criação e o nome de diversos clubes.

A rivalidade com o Reino Unido ganhou um novo capítulo dentro de campo. Quatro anos após o conflito, a Argentina derrotou a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México. A partida entrou para a história pelos dois gols de Diego Maradona: o primeiro, marcado com a famosa "Mão de Deus", e o segundo, eleito um dos maiores gols da história das Copas, após arrancada desde o meio-campo. Para muitos argentinos, aquela vitória teve um significado simbólico que ultrapassou o esporte.

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