
Pesquisadora brasileira acusa espanhol de plagiar 'método Taylor Swift'
Resumo
Uma pesquisadora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) afirma ter sido vítima de plágio por parte de um professor da UMH (Universidade Miguel Hernández), na Espanha. A bióloga Gláucia Silva, mestra e doutoranda da instituição brasileira, diz que o docente se apropriou de uma metodologia criada por ela para ensinar botânica usando videoclipes da cantora Taylor Swift. A universidade espanhola nega a acusação.
O que aconteceu
O caso envolve uma metodologia criada há seis anos. Segundo Gláucia, o chamado "método Taylor Swift" começou a ser desenvolvido em 2020 para tornar o ensino de botânica mais atrativo. A proposta consiste em utilizar videoclipes da artista norte-americana que mostram plantas para estimular os alunos a correlacionarem com conceitos científicos.
A pesquisadora diz que consolidou o método antes do contato com o professor espanhol Joaquín Moreno. Ela conta que aplicou a metodologia em sala de aula e apresentou os resultados no 20º Congresso Internacional de Botânica, realizado em Madri em julho de 2024. Gláucia também publicou um artigo científico sobre o tema na revista Annals of Botany, da Oxford University Press, em agosto de 2025.
Gláucia diz que o professor teve contato direto com sua apresentação. Segundo ela, Moreno assistiu à exposição do "método Taylor Swift" durante o mesmo simpósio em Madri.
A acusação de plágio surgiu após a publicação de um capítulo de livro na Espanha. Ao UOL, Gláucia afirma ter descoberto, em março deste ano, um material de divulgação da UMH apresentando como inovação um projeto desenvolvido pelo professor para ensinar botânica com videoclipes de Taylor Swift. Ao buscar a publicação acadêmica, encontrou um capítulo de livro que reproduzia sua metodologia.
Ele usou o mesmo método, a mesma arquitetura pedagógica, os mesmos vídeos para os mesmos assuntos botânicos e não me cita. Gláucia SIlva
O que a pesquisadora considera plágio
A principal alegação não diz respeito apenas à falta de citação. Segundo Gláucia, o problema central é que o professor espanhol teria apresentado como "nova metodologia" uma estratégia que já havia sido criada, apresentada publicamente e posteriormente publicada em artigo científico.
Se ele sabia da existência do método, não pode reivindicar a inovação para ele mesmo. Isso se chama apropriação de ideias.
Ela também questiona a divulgação institucional feita pela universidade espanhola. Para a pesquisadora, materiais de comunicação da UMH apresentaram o método como criação do professor espanhol, sem mencionar que a metodologia havia sido originalmente desenvolvida por uma equipe brasileira.
No site da universidade espanhola, o trabalho de Moreno é apresentado como uma "inovação". Em texto publicado em março, a universidade diz que o método aplicado pelo docente é "um projeto de ensino inovador desenvolvido na Universidade Miguel Hernández". Uma citação à pesquisa de Gláucia foi adicionada apenas após o contato da brasileira.
Florestas escuras, jardins exuberantes e vastos prados fazem parte do universo visual de muitas canções de Taylor Swift. Além do seu valor artístico, essas paisagens podem se tornar uma ferramenta educacional eficaz. Isso é demonstrado por um projeto de ensino inovador desenvolvido na Universidade Miguel Hernández de Elche (UMH), que utilizou os videoclipes da artista para reforçar as aulas de botânica no curso de Ciências Ambientais.
Texto publicado pela UMH em 5 de março de 2026
Um e-mail enviado pelo professor também integra a contestação. Gláucia afirma que, após ser procurado, Moreno reconheceu por escrito que havia similaridades entre os trabalhos e informou que tentaria solicitar à editora do livro uma atualização da referência bibliográfica. A existência desse e-mail é citada tanto pela pesquisadora quanto pela UMH, que afirma que o docente agiu de boa-fé ao pedir a alteração, embora a editora tenha recusado a modificação.
Gláucia afirma, no entanto, que a solicitação não foi enviada à editora. De acordo com a pesquisadora, o contato de Moreno foi feito com a organizadora do livro, uma professora da Universidade de Alicante, sem relação com a Ediciones Octaedro, responsável pela publicação.
Gláucia afirma que tentou resolver o caso sem recorrer à Justiça. Segundo ela, o primeiro contato com o pesquisador ocorreu no início de março. Depois, procurou a universidade espanhola, a editora responsável pela publicação e a UFRN, que posteriormente encaminhou notificações formais às instituições envolvidas.
Inicialmente, a pesquisadora buscava apenas reconhecimento da autoria. Ela afirma que seu primeiro pedido consistia na correção da publicação, retratação e pedido público de desculpas. Nenhuma das solicitações foi atendida.
Agora, ela pretende recorrer ao Judiciário. Após meses sem uma solução que considerasse satisfatória, Gláucia afirma que contratou um escritório especializado em propriedade intelectual e pretende ajuizar uma ação internacional pedindo indenização por danos morais, reconhecimento da autoria da metodologia, retratação e pedido formal de desculpas. Para custear o processo, ela abriu uma campanha de arrecadação que atingiu a meta de R$ 30 mil.
Pesquisadora relata impactos pessoais
O caso também afetou a vida acadêmica de Gláucia. Ela afirma que o caso provocou ansiedade, desgaste emocional e desviou sua atenção das atividades do doutorado. "Eu continuo trabalhando como doutoranda, mas isso afeta. Você fica assustado, sem saber a quem recorrer."
Gláucia também fala sobre uma tentativa de silenciamento pela UMH. Em um e-mail ao qual o UOL teve acesso, a instituição pede que ela e seus colegas cessem as manifestações nas redes sociais, alegando que elas prejudicariam "o bom nome" da universidade.
Universidade nega acusação
A UMH afirma que não houve plágio. Em um relatório solicitado por Moreno e elaborado pelo Comitê de Ética e Integridade em Pesquisa, a instituição concluiu que a acusação "carece por completo de sustento normativo e acadêmico" e rejeitou integralmente a denúncia. O parecer foi enviado na íntegra ao UOL (veja a conclusão da universidade abaixo).
Segundo o documento, o professor desenvolveu uma pesquisa independente. A universidade afirma que Joaquín Moreno aplicou a metodologia com um grupo próprio de 35 estudantes da UMH, utilizando instrumentos de avaliação elaborados por ele e dados originais, sem reproduzir resultados experimentais da pesquisadora brasileira.
A UMH também diz que houve reconhecimento do trabalho anterior de Gláucia. De acordo com o relatório, o capítulo de livro cita a apresentação realizada pela pesquisadora no Congresso Internacional de Botânica de 2024, que seria a única referência disponível quando o texto foi finalizado. A universidade argumenta que o artigo publicado na Annals of Botany só foi disponibilizado oficialmente depois da conclusão do capítulo.
O relatório afirma ainda que o professor tentou atualizar a referência bibliográfica. Segundo a universidade, após a manifestação de Gláucia, Moreno solicitou à editora Octaedro a substituição da referência ao resumo do congresso pelo artigo científico publicado posteriormente. A alteração, porém, teria sido recusada pela editora.
A universidade afirma que a pesquisadora não participou da apuração interna. O documento informa que o comitê solicitou informações a Gláucia durante a investigação, mas que ela não respondeu ao pedido. A análise, segundo o relatório, foi realizada com base na documentação apresentada pelo professor espanhol.
Gláucia contesta essa versão. A pesquisadora afirma que o e-mail enviado pela UMH não trazia seu nome corretamente, foi encaminhado diretamente a ela — e não à Reitoria da UFRN, como havia sido orientado — e, por isso, considerou que não estava obrigada a responder à solicitação.
O professor Joaquin Moreno foi procurado pelo UOL, mas não respondeu às tentativas de contato. O texto será atualizado caso haja retorno.
O que diz a editora
A editora afirma que ainda analisa o caso. Em nota, a Ediciones Octaedro informou que tomou conhecimento das alegações sobre a autoria do capítulo "Aprendiendo botánica con Taylor Swift" e abriu uma revisão interna.
A Editora Octaedro tomou conhecimento das alegações relativas à originalidade e à atribuição académica do capítulo "Aprendendo Botânica com Taylor Swift", incluído na obra A Universidade Emergente. Em consonância com os nossos critérios de ética editorial, iniciamos uma revisão do caso. Enquanto este processo estiver em curso, não anteciparemos conclusões. Uma vez concluída a revisão, comunicaremos as medidas editoriais pertinentes. A integridade acadêmica é um valor inegociável para a Octaedro. Ediciones Octaedro
O que diz a UMH
A acusação de plágio carece completamente de fundamento normativo e acadêmico.
O professor Joaquín Moreno Compañ agiu em conformidade com as boas práticas de pesquisa, conferindo o devido reconhecimento aos autores anteriores na discussão de seu trabalho e apresentando dados experimentais estritamente originais, decorrentes de sua própria prática em sala de aula na Universidade Miguel Hernández de Elche.
Portanto, após a análise do conteúdo das publicações, a acusação de plágio é integralmente rejeitada.
Universidade Miguel Hernández
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