
Por que existem dois Congos na África? Entenda a origem dos países
Resumo
A seleção da República Democrática do Congo deu trabalho, mas perdeu de virada, por 2 a 1, para a Inglaterra, pela fase 16 avos de final na Copa do Mundo 2026. Foi a primeira vez que o país africano chegou ao mata-mata do torneio.
A presença da seleção chama a atenção para uma dúvida comum: afinal, por que existem dois países chamados Congo na África?
A resposta envolve um antigo reino africano, a divisão colonial do continente pelas potências europeias e trajetórias políticas muito diferentes depois da independência.
Origem está no antigo Reino do Kongo
Muito antes da chegada dos europeus, a região era ocupada pelo Reino do Kongo, um dos Estados mais importantes da África Central. Fundado por povos bantos por volta do século 14, ele abrangia áreas que hoje fazem parte da República Democrática do Congo, da República do Congo, de Angola e do Gabão.
O nome Congo deriva justamente desse antigo reino. E também está ligado ao Rio Congo, um dos maiores rios do mundo. Foi em torno dele que os dois países se formaram historicamente.
A partir do fim do século 15, portugueses chegaram à região e estabeleceram relações diplomáticas e comerciais com o Reino do Kongo. Com o passar dos séculos, porém, o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, disputas internas e a pressão europeia enfraqueceram o antigo reino.
A divisão feita pelos europeus
A separação entre os dois Congos ganhou forma no fim do século 19, durante a chamada Partilha da África. Entre 1884 e 1885, potências europeias se reuniram na Conferência de Berlim para definir zonas de influência no continente africano, sem consultar os povos que viviam nesses territórios.
Na região do Rio Congo, a divisão seguiu, em linhas gerais, o curso do próprio rio. A área ao norte ficou sob domínio da França e deu origem ao chamado Congo Francês. Já a área ao sul e a leste foi entregue ao rei Leopoldo 2º, da Bélgica, como propriedade pessoal.
Esse território passou a ser chamado de Estado Livre do Congo. Apesar do nome, não se tratava de um país livre, mas de uma possessão privada controlada por Leopoldo 2º.
O Congo de Leopoldo 2º
Entre 1885 e 1908, o Estado Livre do Congo se tornou símbolo de uma das experiências coloniais mais violentas da história africana. A região foi explorada principalmente pela extração de marfim e borracha, em um sistema baseado em trabalho forçado, punições físicas, torturas e assassinatos.
A exploração da borracha deixou efeitos duradouros. Uma pesquisa, publicada no The Quarterly Journal of Economics, mostra que antigas áreas de concessão da borracha ainda apresentam piores indicadores de educação, riqueza e saúde, mesmo mais de um século depois.
A pressão internacional contra as atrocidades levou o governo belga a retirar o território do controle direto de Leopoldo 2º em 1908. A região passou então a ser administrada oficialmente pela Bélgica, com o nome de Congo Belga.
O Congo Francês
Do outro lado do rio, o território controlado pela França seguiu outro caminho colonial. Ele ficou conhecido como Congo Francês e, mais tarde, integrou a África Equatorial Francesa.
A exploração também marcou a presença francesa na região. Em artigo de 2025, Mpiti Mosothoane, mestre em estudos africanos pela Universidade de Oxford, cita obras feitas com trabalho forçado, como a ferrovia Congo-Oceano, construída entre 1921 e 1934 sob condições extremamente duras. Estima-se que mais de 17 mil trabalhadores morreram durante a obra por acidentes, doenças, fome e maus-tratos.
Assim, os dois Congos nasceram de uma mesma região histórica, mas foram moldados por colonizações diferentes. Uma belga, ligada ao antigo Estado Livre do Congo, e outra francesa.
A independência dos dois países
Os dois territórios se tornaram independentes em 1960. O antigo Congo Francês virou a República do Congo, com capital em Brazzaville. Já o antigo Congo Belga também adotou inicialmente o nome República do Congo, com capital em Kinshasa.
Para evitar confusão, passou-se a usar informalmente as expressões Congo-Brazzaville e Congo-Kinshasa. Depois, o país de Kinshasa mudou de nome algumas vezes: foi chamado de Zaire durante a ditadura de Mobutu Sese Seko e, em 1997, voltou a se chamar República Democrática do Congo.
É essa República Democrática do Congo que enfrenta a Inglaterra na Copa do Mundo 2026.
Um é mais democrático que o outro?
Apesar do nome, a República Democrática do Congo não é necessariamente "mais democrática" do que o Congo. A palavra "democrática" faz parte do nome oficial adotado em 1997, depois da queda de Mobutu.
Os dois países realizam eleições. No entanto, ambos enfrentam críticas por problemas institucionais, concentração de poder, restrições políticas e instabilidade.
No Congo, Denis Sassou Nguesso governa há décadas, com um intervalo entre 1992 e 1997. Em 2015, promoveu uma reforma constitucional que eliminou o limite de mandatos presidenciais e, em março de 2026, foi reeleito para mais um mandato.
Já a República Democrática do Congo, desde 2019, é governada por Félix Tshisekedi. O país passou por muitas alternâncias de poder e, apesar de avanços políticos, convive com conflitos armados no leste do território, sobretudo contra Ruanda, onde grupos rebeldes disputam áreas ricas em minerais estratégicos.
No fim de 2025, Ruanda e a RDC assinaram um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos. O documento previa o cessar-fogo permanente, desarmamento de grupos armados e retorno de refugiados. Embora o pacto represente um passo importante, especialistas avaliam que a estabilidade da região ainda depende da implementação efetiva dessas medidas.
Apesar do acordo, os confrontos no leste da RDC continuam. O principal foco é o grupo rebelde M23, que a RDC, os EUA e especialistas acusam de receber apoio de Ruanda.
Dois países vizinhos, realidades diferentes
A República Democrática do Congo é muito maior. É o segundo maior país da África em território, atrás apenas da Argélia, e tem população superior a 100 milhões de habitantes. Também possui enormes reservas de cobre, ouro, diamantes e cobalto, mineral essencial para baterias de celulares, computadores e carros elétricos.
A República do Congo é menor, tem cerca de 6 milhões de habitantes e sua economia depende fortemente do petróleo.
As capitais dos dois países ficam frente a frente. Kinshasa, na República Democrática do Congo, e Brazzaville, na República do Congo, são separadas apenas pelo Rio Congo.
Resumindo: por que, afinal, existem dois Congos?
Existem dois Congos porque uma mesma região histórica, ligada ao antigo Reino do Kongo e ao Rio Congo, foi dividida pelas potências europeias no século 19.
De um lado, a França formou o Congo Francês, que deu origem à atual República do Congo. Do outro, Leopoldo 2º e depois a Bélgica controlaram o território que se tornaria a República Democrática do Congo.
O nome parecido, portanto, não é coincidência. Ele revela uma origem comum, mas também expõe como a colonização europeia redesenhou fronteiras, separou populações e deixou marcas profundas na história política e social da África Central.
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