Entidades criticam MP de Lula que exige nota mínima para aluno de medicina

Entidades criticam MP de Lula que exige nota mínima para aluno de medicina

Entidades criticam MP de Lula que exige nota mínima para aluno de medicina

Resumo

A medida provisória que determina que estudantes de medicina devem atingir nota mínima no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) para exercer a profissão foi alvo de críticas de entidades da categoria.

O que aconteceu

Para o CFM (Conselho Federal de Medicina), a medida é insuficiente. O presidente do conselho, José Hiran, disse que o anúncio da MP causou surpresa no grupo, já que há um projeto em discussão no Congresso sobre o assunto. "Só que o governo não gosta de perder e foi uma derrota para eles e uma vitória para a população brasileira quando o projeto foi aprovado em duas comissões do Senado", afirmou o médico.

A MP determina que o exame deve ser feito no 4º e 6º ano do curso de medicina. Para os formandos, é necessário alcançar nota mínima de 60 pontos (até 100) para obter o registro profissional nos CRMs (Conselhos Regionais de Medicina). Como tem força de lei, a medida já vale, mas precisa ser analisada pelo Congresso em até 120 dias para ser mantida.

Uma das principais críticas é sobre a ausência de uma prova prática. Hoje, o Enamed é composto por 100 questões relacionadas a sete áreas: clínica médica, cirurgia geral, ginecologia e obstetrícia, pediatria, medicina da família e comunidade, saúde mental e saúde coletiva. "Tem que ter conhecimento, mas acima de tudo a técnica, e a medida provisória deixa isso a desejar", afirma o presidente do CFM.

Sem o teste prático, há o receio de instituições treinarem os estudantes para passarem no exame. A APM (Associação Paulista de Medicina), uma das entidades contrárias à MP, afirmou em nota que "há relatos" de instituições com baixos resultados na primeira edição do Enamed que "estariam substituindo parte do internato — etapa essencialmente prática da formação médica — por cursos preparatórios voltados exclusivamente para melhorar o desempenho dos estudantes em provas teóricas".

Um outro ponto de divergência é sobre a produção do exame. A medida provisória prevê que o Enamed continua sob a responsabilidade do Inep, instituto ligado ao Ministério da Educação e responsável por avaliações como o Enem. O CFM defende que a elaboração da prova fique com o próprio conselho.

"Quem avalia egresso é o Conselho Federal de Medicina", afirmou o presidente. Para Hiran, o Enamed deve ser voltado para avaliação da qualidade das instituições e dos estudantes de medicina. Neste caso, o exame aplicado pelo CFM seria o Profimed, que ficou conhecido nas discussões no Congresso como a "OAB da Medicina". O presidente do conselho defende ainda que a prova deve ter ao menos 300 questões.

Ex-presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia defende melhorias na MP. César Eduardo Fernandes diz que, em vez de criticar a MP, prefere contribuir para aperfeiçoar o documento — incluindo prova prática e maior participação das instituições de ensino. "Essa deve ser uma política de estado, não de um governo."

Assim como Hiran, ele acredita que o envolvimento de entidades e instituições de ensino deve ser deliberativo. Na medida editada pelo governo, a proposta é de que esses atores tenham papel apenas consultivo. "É preciso ter paridade e especificar quem vai participar desse grupo." Fernandes também é presidente da AMB (Associação Médica Brasileira), mas a entidade decidiu não se pronunciar sobre o tema.

O CFM não tem conflito de interesse na elaboração da prova, o CFM não tem conflito de interesse em nada a não ser levar para a população brasileira um atendimento de qualidade. E essa que é a palavra-chave.

José Hiran, presidente do Conselho Federal de Medicina

O sistema educacional não cuidou e nos últimos anos criamos mais de 200 escolas de medicina. A qualidade não pode ser presumida, mas [deve ser] comprovada.

César Eduardo Fernandes, médico

Universidades defendem MP

Para as entidades que representam as instituições de ensino, a MP é positiva. "A medida tende a dar mais coerência à aplicação do exame e a ampliar a relevância do Enamed para os estudantes", diz nota assinada pela Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares).

Em janeiro, a associação tentou impedir na Justiça a divulgação das notas do exame. Os resultados do Enamed mostravam uma forte diferença entre o desempenho de estudantes de medicina das instituições privadas e públicas — segundo reportagem da Folha de S.Paulo, os alunos de cursos privados vão pior que os da rede pública em 94% das questões da prova.

A "centralização" do processo no MEC foi destacada pelas entidades. Para a ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior), a medida "fortalece a governança do sistema de educação superior". "A associação ressalta também a relevância das regras de transição previstas na medida provisória, que garantem previsibilidade para as instituições e segurança jurídica para os estudantes", diz nota.

Procurado, o MEC disse que a avaliação dos cursos e dos alunos é uma "atribuição legal" do ministério. A pasta não comentou as críticas feitas por entidades como o CFM. "A medida amplia a capacidade de monitoramento e indução da qualidade da formação médica em todo país, assegurando que todas as instituições, independentemente do sistema de ensino ao qual estejam vinculadas, estejam sujeitas a mecanismos de avaliação e supervisão baseados em resultados."

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